– Como você sabe que você é feliz agora? Quando você não quer que o momento acabe.
Essa semana, meu pai me enviou uma foto antiga, do dia de sua formatura da faculdade em 1995. A cena era essa: um grupo jovem, cheio de sonhos e sorridente — um piscou bem na hora na foto, o outro, estava falando quando deram um clique. E isso já tem 30 anos, ele disse… parece que foi ontem.
De repente, uma noção me invadiu de pronto: hoje é ontem.
Foi uma descoberta bem silenciosa, sem grandes eventos. Eu estava em casa, à noite, quando a foto chegou no meu celular. No meio de uma sessão de estudos, no meio da semana de provas mais pesada do ano. É o quarto ano da faculdade – foi difícil, mas já cheguei até aqui!
Meu Deus… eu cheguei até aqui.
Como avalanche, assola-me a ideia de que a chegada pressupõe um caminho percorrido que não retorna mais. Como feixe de luz que passa por seus olhos em um clarão, retornaram à minha memória os meus anos recentes, como quem observa de fora uma história alheia. Eu vim para São Paulo, saí de casa, aprendi a me cuidar sozinha em cidade estranha. Conheci lugares novos, conheci estranhos… espera! Estes não são mais os estranhos que estão sentados ao meu lado, são meus amigos. Estes com quem dividi alguns dos momentos mais importantes até agora. Engraçado! Quando é que ultrapassamos a linha do desconhecido, para virarmos pessoas de quem não consigo imaginar ter que me despedir tão cedo? Eu não me recordo…
Coube uma vida inteira nesse intervalo que, alienado de mim, retorna como reminiscência agridoce. Lembrei das provas de bioquímica e anatomia, das noites estudando juntos, das festas, das risadas, das brigas… Recordei das primeiras descobertas, do “eu gosto daquilo e não disso”, dos dias infinitos que terminavam com um café e alguma reclamação da aula, dos trabalhos, ou das aflições momentâneas.
Lembrei de uma menina que chegou na faculdade com um sonho brilhante, desgastado pela rotina por vezes, e que tem aprendido por força crua da sobrevivência a se remodelar, a voltar a brilhar mais forte. E ele brilha…
E, igual ao meu pai, eu não percebi passar. No internato, tudo vai mudar, nos dizem. A faculdade dura pouco, também sempre ouvimos.
Estranho… parecia que ia durar para sempre.
E nem tudo foi perfeito nesse caminho. É verdade que a faculdade de medicina é pesada, que nos cansa, que te repuxa de dentro para fora, que te faz questionar. Quantas vezes não chorei, cansei-me, que foi difícil continuar, que eu não sabia como prosseguir, ou se seria suficiente.
Mas, para corroborar minha surpresa, essas coisas parecem ter servido de tempero ao longo do tempo. Não daqueles que deixam a comida amarga, mas os que dão a personalidade e aquele gostinho de casa ao prato. Tem gosto de uma história que é minha e é gostosa de saborear.
Eu ainda tenho mais dois anos e meio de faculdade. Pode parecer estranho escrever tudo isso, ainda vivendo o momento. Mas eu digo que algo naquela foto da turma de 1995, e as rugas charmosas embaixo dos olhos do meu pai, juntas, serviram como espelho póstumo ao meu olhar. Quanto tempo vai demorar, até que eu veja as fotos do hoje, e exclame: 30 anos! E parece que foi ontem.
Por um segundo, o cansaço e os meus livros pré-prova foram postos de lado, e esta felicidade clandestina me invadiu como um presente a um viajante cansado. Eu amo cada segundo desse dia a dia repetitivo, cansativo e maravilhoso. Eu amo ver meus amigos todos os dias, eu amo as risadas frouxas e os desabafos, eu amo caminhar todo dia até a faculdade que tanto me ensinou e faz parte de quem eu venho me transformando.
E ao olhar para o espelho hoje, surpreendo-me com uma mulher que se tornou, em meio a tudo isso, sem que eu percebesse.
Lembrei-me, assim, de uma frase que um professor muito sábio nos disse, ao final do curso da cirurgia este ano. Se quiser pôr a sua felicidade à prova, saber se ela está lá, pergunte-se se você gostaria que o momento acabasse. Nós somos felizes, disse ele, quando queremos eternizar o momento em que estamos.
É do caráter bem-humorado da vida, é claro, que esse desejo seja frustro em sua origem. Rindo, então, para não deixar a piada pairar desconfortável, é que percebo a felicidade em que eu estava envolvida todo esse tempo. Percebo porque, ao pensar no dia em que tudo isso chegar ao fim, emociono-me tentando segurar as beiradas da experiência magnífica que tem sido viver.
A percepção do fim traz doçura ao agora.
Mas também suspeito que, após o fim inevitável, levamos conosco algo que não pode ser visto nem tocado. Vejo-os como pequenos artefatos vivos que contam nossa história. Tal qual amuletos preciosos, seguramos firme e continuamos a caminhar – e eles nos protegem e continuam a temperar os novos começos que todos teremos que enfrentar.
Então, o que acontece quando o momento acaba?
Olhamos para trás e dizemos: parece que foi ontem. E, com um aperto no peito familiar, lembro-me de uma felicidade clandestina, de uma eu que soube eternizar o que não pode ser para sempre.
E que se lembra, a cada momento que acaba, que é por isso que vale à pena estar vivo.


