Havia balões de aniversário no leito 127 quando eu entrei. Eram vermelhos e pretos, e um grande número 9 inflável coroava a cabeceira, festivo, representando 9 “algumas coisas” cintilantes de vida de alguém. No caso de Ravi, eram 9 meses, dentre os quais 5 foram dentro dos corredores do hospital: entra e sai, internação e alta. Esse bebê – pensei – deve conhecer mais os tons de branco do que os das cores do mundo.
Mas o mundo inteiro, de certa forma, coube na cena em que eu me encontrava. A celebração da vida em um leito de hospital raramente é algo banal. O quarto agora estava vazio, mas continha as sombras de seus pais, dos irmãos mais velhos e dos avós todos reunidos aqui, como me contaram que aconteceu pela manhã.
—Vieram para comemorar o mesversário dele. É só daqui 2 dias, mas quiseram fazer hoje, sabe?
Aproximo-me do pequenino. Enrolado em cobertas do Carros, e quem olhasse fora do contexto, veria apenas uma criança dormindo serena, alheia a qualquer coisa que não seus sonhos mais profundos. Chove lá fora, mas ele não parece saber. A imagem de sua mãe embalando-o no colo e cantando uma cantiga qualquer, ao lado desse leito, me vem à mente. Tamanho amor nessa visão… de alguma forma, acredito que ele consegue saber.
Ravi nasceu com toxoplasmose congênita. Congênito é o jeito chique de falar que algo na gravidez não deu certo e ele já nasceu com complicações – toxoplasmose, um dos temidos nomes durante a gravidez, é infecção grave. Por isso, Ravi tem muitos problemas e não consegue respirar sozinho. Hoje, vão desligar os aparelhos.
Estou aqui para acompanhar esse caso para um trabalho da faculdade. É o final do meu terceiro ano, e a cada dia que passa, sinto que sei um pouco menos. A cada momento, a medicina deixa de ser algo que eu achava que conhecia, para se tornar esse alguém estranho que estou tentando conhecer de verdade.
Iniciei esse ano na especialidade de ginecologia: vi muitos partos, sorrisos aliviados e mães levando sua nova família para casa. É curioso, penso, terminar o ano dentro do mesmo prédio de hospital aqui hoje, ajudando uma mãe a se despedir de seu filho. Não acha você, também, curioso? Que coexista tão perto, a alegria e um sentimento tão inimaginável para nomear?
Faço hora na sala dos residentes, me apresento.
– Oi, sou aluna do terceiro ano. Vim acompanhar o Ravi.
Nessa uma hora, conheço as médicas, a psicóloga que atende a mãe do Ravi, as fisioterapeutas, os enfermeiros. Eles fizeram um certificado de coragem para o irmão mais velho do Ravi, que todos carimbaram, para entregar no final do dia. Vejo pessoas andando apressadas, algumas mordendo as unhas, balançando o pé enquanto esperam. Sabem que o que vem a seguir será difícil.
Os pais entram no quarto e ficam com Ravi enquanto a equipe começa a preparar os medicamentos e materiais para o procedimento. Percebo quando trazem uma cortina e colocam na janela do quarto do lado de fora, para quem estiver no corredor não conseguir ver.
O pai sai, a mãe fica.
Com uma respiração funda, entro na sala, que já está cheia: de pessoas, de sentimentos, de expectativas.
– É um procedimento rápido. Qualquer coisa que precisar, estaremos aqui.
A mãe se coloca perto da janela, bem do lado da cama, e segura a mãozinha do filho o tempo todo. Ela olha para ele, e para ele apenas, enquanto a equipe se move e inicia os primeiros passos. O que deve estar passando no coração dessa mulher – penso – é inimaginável para qualquer um nesta sala. Franzo a testa, e é como se doesse tentar fazer sentido do que eu vejo. Parece-me tão fora de lugar, tão anti-natural.
Logo, a compreensão me invade: tentar entender é diligência frustra, infrutífera. Desligo a mente e começo a ver a cena através do coração. O raciocínio silencia, e eu sinto.
O monitor ao lado da cama mostra “Atenção: ventilação interrompida”. Escutamos o silêncio, todos parados e quase sem nos mover.
–Gostaria de segurá-lo?
A mãe faz que sim. Ela se demora ao levantar o filho da cama, e aninha-o junto ao peito. Ela pega a mãozinha e a coloca em seu próprio coração, beijando a testa do pequenino.
De repente, é como se a cena fosse fotografada em minha memória.. A mãe e o filho no centro, todos parecem orbitar ao redor deles. Ela começa a chorar e encosta sua cabeça na do bebê. Vejo algumas lágrimas silenciosas pela sala, nossos corações batendo como um só.
É a visão – penso – da dor que não pode ser emprestada pelo outro. Ninguém ali pode compartilhar um pedaço do que essa mãe possa estar sentindo. Mesmo assim, permitem-se dividir um esboço da coisa real. E o esboço, a mera miragem, já é suficiente para que fiquemos postos ali, e aquela dor passa a ser um pouco nossa também.
A médica anuncia que a deixaremos sozinha, mas que se precisar de algo, estaremos logo atrás da porta. Eu saio da sala com os outros e, pela primeira vez, vejo os médicos chorarem. Eles se abraçam, os enfermeiros não conseguem sair do lugar. Todos com os olhos vermelhos, todos se permitindo mais do que haviam dentro da sala.
E, de repente, eu vejo a Medicina, a alguns passos de mim. Crua, nua e despida. Os crachás desaparecem, os títulos somem. Em cada lágrima e em cada abraço, eu vejo a humanidade compartilhada. Tornamo-nos todos apenas pessoas, que sofreram ao ver uma outra sofrer. É como se, sendo pessoas cuidando de pessoas, o inimaginável do outro transforma-se em nosso inimaginável, pelo menos, por um segundo.
E então, permanece no coração aquela revolta intelectual – esse beco sem saída. Ao olhar a cena, no entanto, é sobreposta quase que de imediato pelo contentamento agridoce de cuidar, mesmo sem curar. E esse último, é terreno fértil, é a estrada que leva a infinitas outras.
É ser médico de verdade.
Ana Laura Marins
Novembro de 2024


